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Bruno Azevedo · Resenha

AmarElo, um álbum humano

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Lotada de novas músicas, a obra também foi lançada como albúm no YouTube e no Spotify (Foto: Reprodução)

Em 30 de outubro de 2019 "AmarElo", o mais novo trabalho de Emicida, foi lançado em parceria com diversos outros artistas notáveis. Numa mistura de leveza, crítica, serenidade e política, as faixas conduzem a uma reconexão com a noção de humanidade que, há algum tempo, é sufocada pelo orgulho e pela ilusão de individualidade moderna.

 

Em tempos em que uma discussão civilizada parece um sonho distante, o álbum dá um passo para trás, e traz uma reflexão diferente em cada uma de suas músicas. A introdução à obra “Silêncio”(Exclusiva ao Deezer e Youtube) é prova disso. Não há muito o que dizer sobre a melodia e a letra, já que são ambas inexistentes, restando apenas o clipe, onde o rapper entra em palco e mira a audiência em silêncio. Nesta atmosfera, quem assiste é encarado por diversas pessoas em contextos completamente diferentes e o vídeo se encerra com uma provocação.

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"Quando todos querem falar, Silêncio é um convite à reflexão"

No lugar de “Silêncio”, “Principia” tem papel de introdução nas plataformas restantes (Foto: Youtube)

Após um passo para trás, é muito mais fácil dar dois para frente. “Principia”, a primeira música de fato, é o leve empurrãozinho que nos faz voltar à essa caminhada. Sintetizando muito bem a totalidade da composição, a letra une numa melodia tranquila as duas faces do álbum: a que fala de cotidiano, amor e dos laços em conjunto com a face que trata de problemas sociais num belo discurso crítico.

 

“ Cale o cansaço, refaça o laço

Ofereça um abraço quente

A música é só uma semente

Um sorriso ainda é a única língua que todos entende”

 

Essa foi provavelmente a faixa que mais levou pessoas a postarem que choravam impactadas pelos versos. A emoção se intensifica ainda mais na poesia do Pastor Henrique Vieira, que fala sobre a força que tem o amor, encerrando a música. Se, segundo a própria letra, quem crê no ódio como solução é “barco à deriva sem farol” o amor é a saída, é o que guia, que dá sentido à vida. É também a inspiração e um dos principais temas do álbúm.

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É o ódio, no entanto, o motivo para a criação de outra das faixas. “Ismália” foi outra responsável pelo rolar de lágrimas de muitos, provavelmente a mais carregada de denúncia de toda obra. Entre desigualdade, preconceito e violência policial, o conteúdo denso gira em torno do fato de que o preto que sonha alto tem um triste fim. A inspiração vem do poema de Alphonsus de Guimaraens “Ismália”, recitado na música por Fernanda Montenegro.

 

“Eles num guenta te vê livre,

Imagina te vê rei”

 

A denúcia continua na batida do rap de “Eminência Parda” que levanta a questão do racismo velado. Num dueto com o rapper português Papillon, Emicida expõe a visão que a sociedade tem do negro que sai da periferia e se coloca no mesmo ambiente e patamar dos brancos. O clipe brilhante da faixa insere uma família de pretos num restaurante chique, onde cada branco no lugar os encara de diferentes formas. Sujos. Drogados. Assaltantes.

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Os cenários que se passam na cabeça dos brancos do clipe causam revolta em quem assiste (Foto: Youtube)

Ainda caminhando pelas margens da sociedade, o artista fala da vida de crime em “9vinha”. A composição seduz quem ouve com seu ritmo calmo e romântico, indicando uma inspiração num relacionamento, quando na verdade a temática é a de aquisição de uma arma. Fazendo constantes paralelos com um primeiro amor, o rapper fala das sensações de carregar e usar pela primeira vez uma pistola 9mm(que dá nome à faixa).

 

Mas em “AmarElo” surge, finalmente, um raio de esperança clamando que nem tudo é ruim. A música traz numa vibe pop a mensagem de que ninguém se resume às mazelas que o atormentam. Ao mesmo tempo é também uma via de encorajamento aos que estão numa situação difícil, seja ela qual for.

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A música é uma colaboração com Majur e Pabllo Vittar, e contém trechos de “Sujeito de Sorte” de Belchior (Foto: Yoube)

“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência

É roubar o pouco de bom que vivi”

 

É sobre esse pouco de bom que Emicida fala na outra metade do álbum. Abrindo um sorriso no rosto de quem ouve, “Pequenas alegrias da vida adulta” faz parte dessa metade e fala das coisas pelas quais vale a pena lutar. Entre os desafios do cotidiano, são valorizadas as pequenas coisas que fazem de um dia comum, um dia bom. A canção é fechada com um desses pequenos prazeres, um áudio com uma história engraçada de um dos amigos do artista, Thiago Ventura, quase que numa introdução para a faixa seguinte.

 

“Quem tem um amigo (Tem tudo)” com Zeca Pagodinho, fala exatamente nesse pilar fundamental que é a amizade. Numa linda homenagem para o sambista Wilson das Neves e sem perder a folia do samba, a composição animada traz apenas boas vibrações. “ Oásis nas piores fases, quando somem o chão e as bases”, “ É um ombro pra chorar depois do fim do mundo”, são versos que fazem qualquer um lembrar de momentos da própria vida e de amigos que tenham sido indispensáveis.

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O clipe de “Pequenas alegrias da vida adulta” ressalta a influência que as pessoas que amamos têm na nossa rotina (Foto: Youtube)

No fim, entre discursos políticos e samba na praça, AmarElo é sobre ser humano. Apontando o que tem de bom e ruim nesse mundo, trata-se de uma mensagem de que as pessoas não são tão diferentes quanto pensam, que "Tudo que a gente tem é nóis". Se no lugar de infinitas discussões, as pessoas dessem o braço a torcer com um mínimo de empatia, quem sabe as grandes mudanças que essas pequenas coisas poderiam fazer.

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“Pra que amanhã não seja só um ontem

Com um novo nome”

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