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Bruno Azevedo · Reportagem

Jogo brasileiro ganha visibilidade mundo afora

 

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“O incidente no Bloco 71” foi jogado em vídeo no canal Jacksepticeye, com mais de 30 milhões de inscritos

O canal de Jack é um dos maiores da plataforma, seu vídeo já acumula 2 milhões de vizualizações (Foto: Jacksepticeye)

Intitulado “have you seen THE MOON” (“você viu A LUA?”), o vídeo do criador de conteúdo Seán William McLoughlin, mais conhecido na internet como Jacksepticeye, já recebeu quase um milhão e meio de visualizações no Youtube. O título é uma referência ao enredo do jogo independente da produtora brasileira Scary Cube, que tem como seu único desenvolvedor Bruno Pressanto.

Jack tem um dos maiores canais de gameplay da plataforma, formato de vídeo em que o influenciador grava sua experiência com um jogo. No passado, em conjunto com outros youtubers, ele foi responsável pela popularização de jogos indie (independentes). Um desses jogos foi Undertale, jogo feito pelo desenvolvedor solo Toby Fox, um fenômeno da internet que ganhou popularidade em séries de vídeos como a do canal Jacksepticeye, uma das produções mais icônicas do influencer.

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“Sabe quando você consegue dizer que vai gostar de um jogo antes de começar a jogar, pela vibe, estética e a forma como ele começa? Esse é um desses casos” disse o Youtuber (Foto: Jacksepticeye)

Trabalhando sozinho no projeto, Bruno desenvolveu “O incidente no Bloco 71” em 2 meses como parte do seu trabalho de conclusão de curso, produzido na UCS (Universidade Caxias do Sul). “Fiz meu TCC com o título "Jogos independentes de terror: uma boa experiência com baixo custo de produção". Busquei identificar maneiras de superar as limitações técnicas e financeiras no desenvolvimento de jogos independentes de terror, sem que a experiência de terror fosse prejudicada.”, contou ele em entrevista.

Uma das decisões que ele tomou para ajudar a imergir o jogador na experiência foi ambientar a história no edifício onde o seu curso acontece (o Bloco 71), buscando inserir seus colegas de faculdade numa versão distorcida de um ambiente familiar. Outra escolha, visando atingir toda a base de jogadores, foi se apoiar na nostalgia, se inspirando em desenvolvedores como a Puppet Combo, que é composta por uma pessoa só e mistura nas suas criações os gráficos da era do Playstation 1 e 2 com a estética de filmes de terror dos anos 80.

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Com a  Lua como peça chave do enredo, a história  se passa em 8 de Agosto de 1998, data em que o mundo real assistiu a

um eclipse lunar (Foto: O incidente no Bloco 71)

“A estética foi usada por preferência minha, já que eu sempre gostei da ambientação que ela cria, mas também para a produção se enquadrar nas limitações técnicas e financeiras que eu determinei durante o desenvolvimento do TCC” , declarou o Game designer. “Ela permite otimizar a criação dos assets 3D (desde a modelagem até a texturização e o level design) sem que a experiência de terror seja necessariamente prejudicada”.

No jogo essa busca pelo passado foi atingida usando texturas menos detalhadas nos objetos, pacotes de shaders (que impactam a forma como os objetos são renderizados) que ajudam a construir visualmente a atmosfera e filtros de câmera que se assemelham a uma fita VHS com partes da imagem corrompidas. Nos últimos anos, esse estilo tem se popularizado entre desenvolvedores independentes e jogadores e se tornou muito presente no gênero terror.

De acordo com o II Censo da indústria brasileira de jogos digitais, feito em 2018 pela Homo Ludens e o Ministério da Cultura, produtoras pequenas, como a Scary Cube, compõem hoje grande parte do mercado nacional de desenvolvimento de jogos. Segundo o pesquisador e consultor da indústria de games Pedro Zambon, existem no Brasil empresas de grande porte, como a Wildlife, que conta com uma grande equipe e tem valor de mercado de 3 bilhões de dólares americanos.

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Empresas com até 5 colaboradores compõem uma fatia significativa das desenvolvedoras no Brasil (Foto: SAKUDA, Luiz Ojima; FORTIM, Ivelise (Orgs.). II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. Ministério da Cultura: Brasília, 2018.)

“Paralelamente às indústrias de grande mercado, nós vamos continuar com uma cena de produção majoritariamente independente, com estúdios de poucos colaboradores, já que esse é um cenário intrínseco da indústria.”, afirmou Zambon. As últimas décadas viram diversos avanços na indústria de jogos digitais, muitos deles que viabilizaram o desenvolvimento de equipes pequenas. Grande exemplo disso são as engines, programas que disponibilizam diversas ferramentas úteis no processo de criação, oferecendo uma base de programação pronta para o usuário. Além de potentes, programas assim, como a Unity, GameMaker e Unreal, vem se tornando cada vez mais acessíveis ou até gratuitos.

Graças a isso é cada vez mais comum que  equipes pequenas com uma ideia inovadora criem seus próprios jogos, que passaram a ser denominados “indie”. É o caso de grandes sucessos como Stardew Valley, e Minecraft, ambos projetos que começaram com uma pessoa só e agora são conhecidos mundialmente.

“De uma forma simplificada, a importância dos jogos indie é que a produção independente é onde está a disrupção, a criatividade.”, explicou o pesquisador. De acordo com ele, grandes empresas como Ubisoft e EA têm um potencial técnico e artístico muito grande, mas por terem grandes equipes e orçamentos envolvidos em seus projetos, elas tendem a não tomar riscos nas suas produções.

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O cenário independente também tem maior interesse em tecnologias como realidade virtual ou aumentada (Foto: SAKUDA, Luiz Ojima; FORTIM, Ivelise (Orgs.). II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. Ministério da Cultura: Brasília, 2018.)

Plataformas como a Steam,  a Epic Games Store e itch.io também são fundamentais para que um projeto feito em qualquer parte do globo seja disponibilizado  para venda mundialmente. Segundo o desenvolvedor Bruno Pressanto, esse amplo alcance levou ele a disponibilizar o formulário de opinião, que saiu junto com o seu jogo, em mais de uma língua. “Fiz o questionário em português e inglês caso alguém de fora se interessasse. Eu esperava umas 20 respostas ao todo, mas acabei recebendo perto de 700, a grande maioria de pessoas de outros países”, ele conta.

Bruno, o autor de “Incidente no Bloco 71”, afirmou que depois de algum tempo está voltando a focar no desenvolvimento de jogos de terror. Sobre o vídeo do Youtuber Jacksepticeye, ele disse:  “Foi bizarro (num bom sentido) vê-lo jogar meu jogo. O maior impacto foi saber que milhões de pessoas viram o meu jogo e que talvez daqui um tempo, quando eu lançar outros jogos, eles reconheçam o nome Scary Cube.”

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